A menina no bebedouro – O que eu sei sobre Você ao olhar para Seu filho.
- 3 de out. de 2016
- 3 min de leitura

Levantei hoje pela manhã e já não estava de bom humor sequer para tomar meu próprio café da manhã sozinho. Para melhorar meu dia, imagine só? Isso mesmo: domingo de eleições.
Vamos lá né...? Tem remédio...? - Não!
Detalhe: Não vivo na cidade que deveria estar votando. Então, a ida até a zona eleitoral é apenas para justificar (como se me fosse pedida alguma justificativa).
Enfim, chegando à sessão eleitoral, uma fila modesta já estava formada. E eu estava lá esperando minha vez, quando chega à fila, uma mulher com uma menina pela mão.
A mulher muito bem vestida e arrumada, enquanto que a menina, digamos que nem tanto. Nada que mereça uma queixa no conselho tutelar, mas digamos que os “looks” estavam bem discrepantes.
A mãe de cabelos molhados e maquiada. Enquanto que a menina, que aparentava seus cinco anos, estava visivelmente com roupas de dormir e cabelos de quem ainda estava dormindo - tentei não julgar nada de primeira. Mas às vezes é bem difícil.
A mulher estava visivelmente ocupada com mil coisas que não sei o que seriam, mas, obviamente a menina não estava na lista. E a mulher olhava para os lados, procurava alguma coisa ali no salão, olhava para o celular, olhava para as pessoas e repetidamente voltava a olhar para o celular e para o salão.
A menina, cansada de puxar a mãe pela saia e dizer que estava com sede, tomou a iniciativa de tomar água no bebedouro sozinha.
Numa confusão entre tomar água, brincar e não alcançar a saída de água no bebedouro, a menina se molhou – um pouco.
Voltou correndo para a mãe e disse:
_Mãe, olha: o bebedouro me molhou.
E a mãe, simplesmente olhou a filha por poucos segundos e voltou aos seus “compromissos online”, via celular.
A menina voltou ao bebedouro, se molhou um pouco mais. Desta vez se surpreendendo um pouco menos com a temperatura da água e se divertindo um pouco mais com a situação.
Voltou correndo, se esforçou para um olhar um pouco mais dramático e tornou a interagir com a mãe:
_ Mãe, olha o que o bebedouro fez: Me molhou mais ainda.
A repetição é uma coisa que faz muito sucesso quando o assunto é chamar atenção de outras crianças, mas quando se trata de adultos, a coisa não é bem assim. E este caso, não foi exceção.
A mãe da menina desta vez, sequer tirou o olho do celular.
E lá foi a menina mais uma vez para o bebedouro.
Bem, não vou ser o chato de repetir a cena. Mas a menina ficou realmente ensopada desta vez – um verdadeiro banho! Acredito que deva ter ocorrido à menina a possibilidade de ficar lá embaixo da água até que a mãe decidisse tirá-la de lá. Mas a temperatura da água provavelmente a impediu.
Voltando para a mãe, a menina tentou mais uma vez relatar à mãe o acontecido – “Mãe, o bebedouro me deixou molhadinh...” E pá! .... Bruscamente sua mãe a pegou pelos braços, chacoalhou algumas vezes e a colocou sentada no banco. Tudo acompanhado, é claro, da boa e velha separação de sílabas nas frases imperativas: Sen – ta – aí – me – ni- na.
Agora, o que eu sei sobre você? (Esta mãe) que tem estas atitudes?
Bem, não sei muito sobre você, sobre seus problemas, sobre sua prioridades, suas aflições e para ser bem sincero, nem quero saber.
Mas sei sobre o tipo de ser humano que você está disposta a por no mundo. Sei também o que você “fez de errado” para “merecer um filho assim”. Sei também o que aconteceu, para a sua filha ser tão carente afetivamente. E sei o que às vezes te passa despercebido sobre amor, educação, atenção...
Não sou e nunca fui pai. Muito menos mãe. Mas já fui filho! E não preciso ser psicólogo para entender as estratégias que um “serzinho” pode elaborar para conseguir ser visto. E estes banhos de bebedouro não são os primeiros e não serão os últimos.
Enfim. Tomar “alguns banhos no bebedouro” já faz parte do que todos nós somos. Certo?


Comentários