Caixa de Emergência
- 12 de out. de 2016
- 7 min de leitura

Hoje é dia das crianças. Dia que há pouco tempo costumava ser tão especial em minha vida. Uma sensação que agora parece algo tão distante...
Ocorreu-me escrever algo comemorativo.
Decidi que escreveria sobre a criança mais próxima a mim no meu dia-dia. Ou seja: Eu mesmo.
Na verdade, são memórias que eu já pensava em escrever há algum tempo.
Fui até um quartinho de despejo aqui de casa, ver algumas coisas velhas que trouxesse recordações interessantes. Encontrei uma antiga caixa de brinquedos que nem esperava que ainda contivesse alguns itens que pertenceram a uma outra caixa que a antecedeu. Era a minha “caixa de emergência”.
Tratava-se de uma caixa de tênis com a marca Cooper estampada na tampa. E nela, eu mantinha em segredo alguns objetos que coletei em casa. Itens que considerava que pudesse ser importante para alguma hipotética situação de emergência.
Lembro que deu trabalho na época montar a caixa, porque cada objeto deveria realmente ser de grande relevância, caso contrário, estaria tomando espaço de outros itens que poderiam fazer falta em alguma emergência. Outro aspecto também importante seria pensar em coisas com tamanho que coubesse na caixa.
Mas vamos à incrível lista dos magníficos itens indispensáveis e fundamentais que aos nove, dez anos de idade elaborei:
Uma tesoura escolar: Seria fundamental em qualquer situação de sobrevivência, caso precisasse de um objeto cortante. De início, o desejo era poder guardar uma faca na caixa. Mas mesmo para mim, era intimidador demais ter algo tão perigoso dentro de uma caixa e no meu quarto – minha mãe jamais deixaria. Além disso, não era o tipo de objeto que eu pegaria dentro de casa e ninguém sentiria falta. O que me lembra o próximo item da lista...
Um carretel de linha de pesca: Outro objeto importantíssimo em situações de sobrevivência. Não havia rio tão próximo de casa. Mas um dilúvio como o descrito na bíblia não era algo a se descartar. E foi tão fácil pegar na caixa de pesca do meu pai, que achei interessante adquiri-lo. Por vezes pensei em pegar um anzol junto. Mas era um objeto que eu sempre me machucava só de pensar em chegar perto. Então acabei deixando a idéia de incluir um anzol na caixa algo a se pensar em um momento futuro.
Uma caixa de fósforos: Fogo também era algo importante em situações de sobrevivência. Mas acima de tudo: era parte fundamental ao uso do próximo item da lista.
Uma vela: Quando criança eu tinha um medo absurdo do escuro. Um medo que me acompanhou uma boa parte da minha vida. E ter uma vela, no meu quarto em um lugar que eu conseguia encontrar em segundos, era uma coisa que me trazia muita tranqüilidade. Foi para mim, o item mais importante da caixa, até o dia que pude comprar o próximo item da lista.
Uma lanterna pequena: Este sim foi o item que deixou minha caixa a coisa mais doida do mundo. Um vizinho mais novo tinha ganhado da mãe dele uma lanterna pequena, carregada com duas pilhas AA pequenas. Quando a vi nas mãos dele, decidi que seria o item que precisava de qualquer forma na minha caixa. Nas semanas que seguiu, juntei dinheiro como pude para comprar uma. Era barato (apenas um real), o complicado mesmo foi comprar pilhas para ela e outras pilhas sobressalentes. Essa lanterna era definitivamente o fim da possibilidade de ficar no escuro em casos de falta de energia – ainda mais considerando o estoque de pilhas que acumulei na caixa.
Uma ficha telefônica: Engraçado saber que hoje em dia, muitas crianças e jovens nem saberiam para que serviu um dia. Olhando a ficha na minha mão, sorri ao ver o ano de 1985 estampado.
Lembrei que na época, não tínhamos telefone em casa, a única pessoa que tinha telefone na família era minha avó paterna que na época, certamente não seria alguém a ligar numa situação de emergência. Recordo-me que na época já tinha noção disso mas pensava que ainda assim, a ficha teria utilidade, caso precisasse ligar aos bombeiros ou a polícia – Interessante é que acho que na época isso já era de graça nos orelhões, então concluo que a ficha era inútil mesmo.
Um lápis e pequenos blocos de papel: Estes objetos já não estão nesta caixa na minha mão, mas estiveram na caixa de emergência. Tratava-se de um único lápis. Sim: um lápis, pois eu não confiava nas canetas que deixavam de funcionar sempre que você mais precisava delas. Além disso, a tesoura que eu tinha me permitia apontar o lápis sempre que fosse necessário.
Os blocos de papel, eu mesmo confeccionava com folhas de papel sulfite cuidadosamente cortadas em oito partes e coladas pela parte mais estreita. Parecia-me prudente ter onde registrar informações importantes em situações de emergência. Talvez um diário de sobrevivência?
O tubo de cola foi algo que me ocorreu ter na caixa. Mas aquela porcaria só servia para papel e se eu o retirasse dos meus materiais escolares, teria problema com minha mãe na certa.
Um carrinho pequeno de fricção: Um pouquinho de entretenimento Porque ninguém é de ferro né?
Na verdade esse carrinho foi parar na caixa, por outros motivos: Há tempos, meu pai não nos comprava brinquedos, e, depois de várias investidas minhas e de meu irmão, ele finalmente disse que não comprava nada porque nós quebrávamos tudo (o que não era bem verdade, ainda mais se tratando de mim). Ainda assim, certo dia meu pai apareceu em casa com esse carrinho e disse que a cada mês que mantivéssemos esse carrinho inteiro, ele compraria outro. A idéia me deixou muito animado e, como tinha medo que meu irmão quebrasse o dele e depois quebrasse o meu, achei prudente que ele fosse para minha caixa. Acontece que meu irmão quebrou o dele, e quando conversei com meu pai sobre o carrinho que eu tinha direito, ele me informou que o acordo só valeria se os dois carrinhos estivessem inteiros. Essas foram minhas primeiras lições sobre coletivismo, meritocracia e sobre me importar em entender bem acordos.
Um mini estojo de dominó: Estar com outras pessoas em uma situação de emergência ou espera, poderia demandar alguma atividade em grupo. Então achei importante ter este item na caixa.
Algumas vezes que acabou a energia em casa, rapidamente peguei minha vela e cheguei a chamar meu irmão para brincar de dominó enquanto a luz não voltasse. Ele não quis. Preferiu ir dormir mesmo.
Enfim – nem sempre as coisas funcionam como planejamos.
Uma bíblia de bolso: Era um ponto importante ter minha religiosidade garantida em situação de emergência. Este item também só esteve na caixa de emergência original, devido aos acidentes ocorridos com o próximo item da lista.
Uma garrafinha de água: Depois de alguns acidentes com vazamento, decidi passar a guardar a garrafa vazia. O que mais tarde me levou a jogar a garrafa fora - visto a impressionante velocidade que o bolor pode evoluir em uma garrafa tão pequena.
Com o tempo, fui deixando a caixa de emergência de lado. E os itens importantes foram perdendo espaço para coisas que eu achava mais divertidas. E aos poucos a caixa de emergência se tornou esta caixa de brinquedos que é a caixa que encontrei no quarto de despejo de casa.
O motivo de minha surpresa em encontrar esta caixa é justamente não ter me dado conta de como ela me acompanhou, mesmo depois de três mudanças de endereço pela qual passei em minha vida.
Hoje, olhando esta caixa, consigo entender como cada um destes objetos representam coisas que um dia foram medos ou preocupações que fizeram parte de minha vida.
O medo do escuro: Estranho notar que crescemos e o medo de escuro dá lugar a medos bem mais concretos e mesmo assim, sobrevivemos. Hoje o medo do escuro foi substituído pelo medo da violência, de ser assaltado, sequestrado... A vela e a lanterna foram substituídas por seguros e sistemas de segurança que são bem menos eficientes.
Linha de pesca: Talvez a linha de pesca sem o anzol seja a metáfora perfeita para todos os problemas da minha vida que um dia eu sei que vou ter que enfrentar, mas que eu por opção própria prefiro não olhar agora.
A ficha telefônica: Já adulto, era grande a preocupação em viver longe da minha família tanto quando ou ate mais que na infância. E o fato de não poder ver ou falar com meus pais todos os dias, parecia sufocante. Hoje, vivendo a quase trezentos quilômetros de distância deles, não nos falamos todos os dias, mas nunca me senti tão conectado emocionalmente a eles. Fato esse que por si só me fez entender o quanto algumas preocupações não são nada eficientes.
O lápis: Olho para trás e só consigo lembrar como para mim era preocupante a ideia de passar pela terra sem ter ao menos suas idéias registradas numa simples folha de papel. E a prova que ainda sou o mesmo é ver como a bem pouco tempo retomei o antigo prazer da escrita.
O carrinho: Não tenho intenção alguma de me por em posição de vítima sobre o episódio que relatei em torno do carrinho. Muito pelo contrário - hoje dou valor a tudo que vivi e entendo o poder da restrição e de aprender ouvir alguns “não” faz parte da vida. Empenhar-se e não ser recompensado faz parte e quanto antes aprender a lidar com isso, melhor para você (vai por mim).
O dominó: Preocupa-se exageradamente em ser agradável aos outros foi uma maldição que me acompanhou por muitos anos. Hoje tiraria este item da minha “caixa de emergência” e colocaria numa outra caixa. Talvez uma caixa destinada a coisas que devesse dedicar às pessoas que me importo e correspondem.
A bíblia de bolso e a garrafa de água: Outra metáfora perfeita de como minha vida religiosa seguiu. Não que a bíblia represente exatamente minha crença em Deus. Mas certamente ilustra bem minha relação com religião. A água pode ser por vezes meu próprio descaso ou coisas externas pelas quais passei.
Muita gente escreve longos textos sobre o que diria a si mesmo se pudesse voltar no tempo. Que conselhos se dariam, que avisos ou o que mudariam. E pensando nisso, me surpreendi com a resposta que sinceramente me dei: Nada. Não diria nada.
Não acho que me preocupei demais ou menos do que devia. E não sei se dizer a mim mesmo para me preocupar com isso ou aquilo seria melhor.
Se pudesse voltar no tempo e falar algo a mim mesmo, só diria uma coisa: Obrigado. E me daria um longo abraço. Só isso.
Olhar hoje esta caixa em minhas mãos, com apenas alguns itens da minha antiga caixa de emergência e ver que aos poucos foi tomada pelos brinquedos e outras coisas bem mais divertidas me deixou feliz. Senti-me bem em pensar que como a caixa de emergência, aos poucos a minha vida também possa ter se tornado mais divertida e leve.
Será um bom exercício daqui a trinta anos olhar para esta caixa de novo e voltar a escrever sobre ela.
Feliz dia das crianças.


Comentários