Medo
- 31 de out. de 2016
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Ele nasceu debaixo da minha cama - eu Acho – só não lembro quem foi a primeira pessoa que me contou isso. Seu primeiro nome foi bicho papão e por vezes foi nomeado como “a criatura debaixo da cama”. Lembro-me como se fosse hoje o dia em que um vizinho mais novo que eu me contou que existia um monstro que morava debaixo da cama. Uma criatura má que durante a noite puxava seu pé e te arrastava para um buraco que ele criava debaixo da sua cama, te levando para um inferno de fogo com muitas outras criaturas do mal que te torturariam e te fariam de escravo pelo resto da eternidade, longe dos seus pais, dos seus irmãos e qualquer pessoa boa que você conhecesse.
Que longas foram as noites pensando naquilo. Por vezes eu o vi no escuro – sei que isso é absurdo, mas era só no escuro que ele aparecia. Quando a luz se apagava, meus olhos saltavam, parecendo que iam escapar das orbitas e eu nunca mais voltaria a enxergar. Lentamente os olhos iam se acostumando e algumas fagulhas imaginárias surgiam como pequenos relâmpagos, e então, quando as imagens iam tomando forma eu podia vê-lo, subindo lentamente sua mão por baixo dos lençóis, seus longos dedos se esgueirando entre as dobras do tecido e a ponto de pegar meus pés. Após alguns segundos de mobilização, frio e terror, finalmente eu conseguia rapidamente pular da cama e sair correndo a tempo de me salvar indo para o quarto dos meus pais. Lá ele não me pegaria jamais. Pelo menos nunca ninguém me contou sobre adultos sendo levados pelo bicho papão. Foram várias estas fugas noturnas. Minha mãe sempre foi minha heroína, me acolhendo de imediato. Meu pai já era realista e tratava logo de me dar aquele sermão de sempre, tentando me convencer a voltar para a cama – sempre assim – repetidas e quase intermináveis noites. Após alguns minutos eu conseguia dormir e logo pela manhã eu acordava já na minha cama são e salvo. Pelo menos até que a próxima noite chegasse e aquele maldito voltasse a me aterrorizar tentando me levar embora.
Com o tempo, ele passou a ser ainda mais engenhoso em seus planos: Ele se escondia dentro da privada! Sim. Era uma tortura ter que ficar no banheiro com as calças praticamente amarrando as pernas e me impedindo de uma fuga eficiente no caso de uma investida contra meu quadril. Mas ele nunca atacava enquanto você estivesse ali sentado. Ele esperava o momento em que você se levantasse e desse a descarga. Ele aproveitaria aquele barulho absurdo para saltar daquele monte de água, te agarrar e te levar para o mesmo lugar que ele puxava debaixo da cama. E para ajudar, o banheiro de casa tinha um fecho pequeno e enferrujado que sempre tinha que ser puxado fazendo movimento de sobe e desce para ele deslizar. Foram anos de treino e muita adrenalina para poder fugir a tempo.
Tamanha ineficiência dele, somada a um ponto de vista mais racional, começava a gerar duvidas sobre sua existência. E como todo mundo dizia o mesmo, acabei deixando ele de lado.
Passados alguns anos, ele continuou me acompanhando. Criatura maléfica, povoando meus sonhos. Bastava que eu assistisse qualquer filme de terror ou ficção cientifica com monstros ou alienígenas e ele voltava em forma de pesadelo. Muitas noites passei em claro. Eram terríveis as formas que este maldito adotava em sua tentativa ardilosa em me capturar.
Na adolescência, ele deixou de ter sua forma física. Eu ia me fortalecendo e me tornando adulto e até podia comemorar a conquista a cada ano que passava – era obrigado, na verdade – com tantas vezes que fui gentilmente conduzido a esquecê-lo: “Nossa, grande desse jeito e não pode dormir no escuro?” Ou “Nessa idade e não pode dormir na mata sozinho?”. Uma hora a gente se obriga a ignorá-lo. Inclusive, diziam este ser o segredo para superá-lo.
Mais tempo somado à vida e ele também era incorporado às minhas crenças, abraçando minhas inseguranças e perseguindo não só a mim, mas a todos os que me rodeavam.
Escoltado por ele nos passos para o primeiro dia de aula, disfarçado na loira do banheiro da escola, no gelo das mãos no primeiro beijo, nas noites mal dormidas pela preocupação com as pessoas que amei, na iminência da perda, nos inúmeros acidentes que nos cercam...
O tinhoso também perseguia meu filho. Como uma velha piada, já me fazia capaz de rir de sua existência - quem diria...
Meus filhos se tornariam adultos e certamente um dia provariam da mesma sensação. E assim será com seus filhos e os filhos deles...
Aos noventa anos, sozinho neste hospital, nos últimos momentos que sei que permanecerei na terra, me encontro mais uma vez com meu algoz. Ao encará-lo, neste quarto escuro, pergunto com um sorriso tímido o porquê dele nunca ter sido capaz de me pegar, nem mesmo quando eu era uma criança tão pequena. Após instantes de suspense e uma longa risada diabólica, ele me responde:
- Huahaha... Você acha mesmo que algum dia tentei te pegar? Como agora e sempre, antes mesmo de correr eu já havia te alcançado.


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