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  • Facebook Clean Grey

Criatividade

  • 10 de out. de 2016
  • 3 min de leitura

Em uma saleta modesta em branco e bege estampada, entre pilhas de publicações delicadamente organizadas, encontra-se o artista recluso. Imerso na poeira e no mofo que o tempo já fazia imperceptível. À luz de vela fraca que nas paredes estampa as únicas companhias em trevas animadas - sutilmente notadas a cada relance de olhos alertas e desfocados.

Já nem se recorda de detalhes tão preciosos da vida: a perda da mãe aos seis anos de idade. Nem à mente lhe passa sequer a memória do pai há menos de dois meses falecido.


Apenas recluso.


O artista envolto em memórias e vagos pensamentos há tempos se degrada em solidão. A mesma solidão por vezes abraçada pelos sábios e que aos tolos faz vítima. A solidão que inexoravelmente com os viventes se encontra.


Naquele momento, solidão era a tradução da vida que o artista havia levado dedicado à sua arte. O artista padecia da sentença por ele mesmo imposta ou seria ela a maldição dos agraciados pelo apreço ao belo? - Não importa.


Mais um rápido olhar para os lados acompanhando todos os movimentos ao redor.


Da janela mais alta, o convite à liberdade se anunciava a dois passos de distância: Apenas dois passos.

Os dois passos e um respiro de alívio: Esta era a distância para uma viagem ao desconhecido. Ali se encontrava. Ausente de um destinatário para seu adeus.


Que desperdício tal experiência não ser relatada nos mínimos detalhes que cada segundo merece: O ar se opondo à gravidade implacável; O sutil suor das mãos que em segundos se revela como que por mágica; As narinas secas e inúteis aos segundos sem fôlego; O ensurdecedor pulsar do sangue quente nos tímpanos; cada músculo se contraindo como os de uma presa imóvel entre as vísceras de seu predador;


O mundo diante de seus olhos e sua existência se esvaindo. Tudo menor a cada segundo...

Menor...

E menor....

E nada.

...


Um pulsar de energia vibra...

Após o apocalipse...

A quarta dimensão...


Tato, olfato, visão, audição, paladar... nenhum e todos os sentidos ao mesmo tempo e em tempo algum.


Só o que resta é percepção do todo em si e a si próprio no todo imerso, transcrito em vibração e energia.


Uma dança de sóis multicoloridos como que em bolhas de sabão envoltos, pairando aleatoriamente em um movimento cósmico orquestrado por um grande astro violeta e negro.


Lembranças dispostas geometricamente como uma colcha de retalhos estendida ao infinito. linhas de memória entrelaçadas.


Aquilo que um dia foi nomeado como caos, onde formas perfeitas e imperfeitas se misturam. Retas e curvas se contrapõem e se compõem na perfeita expressão da palavra confusão.


Acima do azul celeste e abaixo do ouro divino. Consistência e inconsistência coexistindo sem fronteiras.


A consciência do artista ainda existia, imerso neste universo sem sentido. Explorando a imensidão de sentidos inomináveis. Como uma criança recém nascida explorando a inédita confusão de sentidos que são apresentados em seu nascimento. Tudo ali era energia oscilando infinitamente. Em tudo estava o belo e o novo.

E, após uma extasiante eternidade de sensações contrastadas de calma e agressividade, o artista voltou ao seu incondicional estado de tristeza. Deu-se conta do quão solitário a inércia daquela existência ainda o fazia.


Qual o sentido do que lhe era apresentado senão pudesse compartilhar?

Amargamente redescobria o propósito de sua existência. O que um dia chamou de propósito divino.


E, como nunca antes, o artista sentiu o desejo ardente de voltar ao mundo de antes. Compartilhar incondicionalmente o belo e o infindável universo que carregava dentro de si: Sua criação...


Abrindo aos poucos os olhos, a luz se fez...


Acordado de mais um de tantos sonos profundos, o artista se levantou de sua mesa. Naquela mesma saleta branca e bege. Abriu as velhas cortinas pelo tempo corroídas, sentiu o ar leve em seus pulmões, o sol da manhã iluminando o quarto. Ligou o velho rádio à pilha sobre a mesa e se pôs a pintar.


Noticiava no rádio entre musicas para ele inéditas: Exposição de artes no parque municipal com obras do ilustre artista plástico Taubateano Romeu Aldo. Famoso por suas pinturas e pelos seus belíssimos trabalhos concebidos após anos do diagnóstico precoce do mal de Alzheimer.


Por um curto segundo, o artista recordou-se de seu próprio nome.

E timidamente, um sorriso em seu rosto se esboçou...



Nota: Conto inspirado na pintura "Composition Vlll" de Vasily Kandinsky.

 
 
 

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