Verdades Sutis
- 25 de out. de 2016
- 3 min de leitura

Quando eu tinha sete anos (início dos anos noventa) ter um carro não era tão comum como é hoje – pelo menos não na minha família. E andar no carro de quem quer que fosse sempre era um evento para mim.
Lembro que meu tio tinha um corcel II, que era um carrão na época. O carro era um espetáculo aos meus olhos: Era espaçoso, interior todo em tecido bege e um painel que me lembrava muito as naves espaciais tão recorrentes nos filmes da TV. Curiosamente o carro cheirava a doce (pelo menos aquele cheirava).
E o carro tinha a porta bem comprida, que alcançava quase o banco traseiro. E como meu tio usava o banco do motorista bem afastado, mesmo para mim que era pequeno, era possível sentar no assento do banco de trás, encostando-se na porta do carro e na parte de trás do encosto do banco do motorista.
Toda vez eu me sentava desse jeito, meu tio sempre dizia: Não senta deste jeito moleque, que um dia a porta do carro abre e você “cai pra fora”.
Nas primeiras vezes, sempre que ele dizia isso, eu obedecia e me sentava corretamente. Mas com o tempo eu passei a ignorar. Mesmo tão novo, parecia um absurdo que a porta do carro fosse abrir apenas com o meu peso.
Certo dia, entramos no carro correndo: meus primos e eu. Meu tio já estava dentro do carro e iria nos levar ao coreto da cidade. Nem preciso dizer que sentei “daquele jeito”. E de repente, antes que o carro largasse, a porta abriu! E eu gelei - quase morri de susto!
Não cheguei a cair, mas nunca mais andei em carro algum daquele jeito.
Ano passado, já com trinta anos de idade, estava lendo alguns artigos falando sobre curiosidades envolvendo contos de fadas. E uma história que nunca foi das minhas preferidas, chamou-me a atenção: Pinóquio.
Não pelo lado sentimental envolvido, muito menos pela moral que a história traz. Mas o que me chamou a atenção foi nunca ter me dado conta da sutileza na metáfora da mentira e crescimento do nariz. Mais que isso: eu nunca tinha parado para pensar o porquê de ser o nariz a crescer e não qualquer outra parte do corpo do boneco.
Só então me dei conta que a metáfora vai muito mais afundo do que parece: quando Pinóquio vai contando mentiras, assim como com qualquer pessoa, com o tempo elas vão se tornando mais evidentes - ficando digamos que “na cara”. Tudo bem, eu sei que posso estar parecendo um tapado depois vinte e cinco anos ouvindo esta mesma história muitas e muitas vezes e só agora ter me tocado o quão profunda esta metáfora é.
E afinal, o que tem o caso da porta do carro a ver com o nariz do Pinóquio?
Bem, a princípio nada.
Exceto que assim como com a metáfora do nariz do Pinóquio, só agora, já adulto eu pude perceber o que havia acontecido aquele dia no carro do meu tio: Obviamente, não foi o peso do meu corpo que abriu a porta daquele carro aquele dia. E sim o meu tio.
Foi o jeito que meu tio encontrou de me dar o susto que eu precisava para entender a preocupação que ele tinha.
A vida é cheia de surpresas. E coisas que por tanto tempo nos passaram despercebidas, podem revelar aprendizado e muita sabedoria dos que nos antecederam da forma mais pura e sutil.


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