Bruxa
- 29 de out. de 2016
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Aos 58 anos e viúvo, seu Zared finalmente rendia-se à doença que há dois anos dava sinais que chegaria. As repetidas vezes que contava suas histórias aos amigos aposentados do trabalho, as idas e vindas para checar a última volta da chave nas portas e até os dias da semana que com freqüência eram confundidos.
- Sim, senhor. O diagnóstico é demência. O senhor tem algum familiar que possa morar junto com o senhor? - Estas eram as palavras que ecoavam em sua cabeça. Dr. Rubens foi o médico da família desde o nascimento de sua única filha Malvina e era agora o portador do diagnóstico que condenava sua vida.
Anos se passaram desde que Malvina saiu de sua casa aos prantos, jurando nunca mais falar com o pai.
Porém, no dia em que seu Zared finalmente foi internado em condições já bastante avançadas da doença - com a fala e locomoção comprometidas - lá estava Malvina aguardando alta médica do pai.
Os anos após a briga com o pai naquele dia não foram fáceis. Malvina seguiu em frente com sua vida e realizou o que havia desencadeado toda a desavença familiar: Casou-se com o motorista da família. E como profetizado pelo pai, o casamento só lhe trouxe desgosto e arrependimento. Como uma espécie de maldição, o mesmo se repetiu em outros dois infelizes casamentos que seguiram. Motivo pelo qual, ano após ano, os sentimentos mais terríveis povoavam a mente de Malvina que atribuía ao pai a culpa por todo o sofrimento passado. Uma mulher tocada pelo mal, amargurada, que frequentava centros de magia negra e que se relacionava com pessoas de caráter duvidoso.
Quando recebeu a ligação do hospital, sentiu-se agraciada. Parecia que os anos e as suas preces em favor do mal começavam a gerar frutos.
De volta à mansão do pai, embora contra sua vontade, Malvina desfrutaria de todos os bens que o pai acumulou em anos como diretor de uma grande indústria alimentícia. E as únicas coisas que haveria de tolerar seria algumas expressões vazias do pai preso à cama e eventuais passeios em uma cadeira de rodas. Quadro este que deveria permanecer o mesmo, graças aos medicamentos que incluiu na lista fornecida pelo doutor Rubens. Medicamentos sem nenhum efeito imediato, mas que tornariam sua debilidade mental perene – uma generosa indicação dos amigos “místicos” que conheceu.
Malvina procurou meticulosamente nos jornais, por acompanhantes de idosos com os pré-requisitos ideais para os cuidados que esperava para seu pai e, após alguns dias de busca e uma proposta irrecusável, Cinara foi recrutada para o trabalho em período integral.
Cinara era uma mulher de meia idade que tinha em seu currículo espantosos atributos relacionados ao cuidando com idosos: O falecimento de doze dos quinze últimos clientes e dois processos em aberto, relatando maus tratos, negligência médica e até violência contra idosos.
Malvina dispensou a vigilância, retirou algumas câmeras de segurança e contratou um novo porteiro que deveria apenas fazer registros envolvendo qualquer movimentação fora do normal nas proximidades da mansão.
O circo estava armado. Malvina passava dias fora de casa, deixando que o tempo e as potenciais habilidades de Cinara propiciassem o que suas intenções secretamente planejavam para seu pai. Impaciente, muitas vezes entrava no quarto do pai à noite e discretamente cometia contra o mesmo uma sorte de violências verbais e físicas pelo simples prazer em fazer o mal.
Em poucos meses, a fama de Cinara começava a dar sinais promissores à causa. Era visível a falta de cuidado com a aparência e higiene pessoal do pobre velho. O descaso no trato era recorrente - mesmo na presença da filha.
A mansão secretamente guardava o terrível futuro preparado ao senhor Zared.
Após dois dias sem sinal de movimentação na casa, o segurança foi chamado pela faxineira aos berros. Entrando na casa, o cheiro podia ser sentido da porta. Sangue era visto escorrendo do banheiro por baixo da porta trancada. Arrombando a porta, o segurança pode ver os corpos da patroa e da cuidadora violentamente mutilados com uma navalha jogada ao lado.
A polícia foi chamada e seu Zared nunca mais foi visto.
O caso encontra-se aberto e muitas dúvidas pairam em torno do caso. Se houve sequestro ou o que teria acontecido na mansão.
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Algumas vezes, ao tentar evitar um evento acabamos tomando atitudes que acabam por desencadeá-lo: A negligência da cuidadora com os medicamentos não estava devidamente incluso nos planos de Malvina. E a melhora paciente, fria e silenciosa do senhor Zared, aguardando pelo momento certo de agir também não.
Senhor Zared é mais um entre as centenas de moradores de rua que você pode ver pela grande São Paulo. Dormindo sob caixas de papelão, entre pesadelos, pode ser ouvindo em seus murmúrios: Bruxa.


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